30 ANOS DE SAUDADES: ANILBERTO & CLEONICE, UMA HISTÓRIA DE AMOR QUE
NEM MESMO A MORTE CONSEGUIU SEPARAR.
Imagem recriada com IA pelo Blog de Quincuncá, a partir de um monóculos do acervo de Auremar Pereira.
No distrito de Quincuncá, em Farias Brito-CE, onde o tempo parece ditar
seu próprio ritmo, viveu um casal cuja trajetória desafia os "tempos
líquidos", descritos pelo sociólogo Bauman - uma era onde nada é feito
para durar. A história de Anilberto Pereira e Silva e Maria Cleonice Silva foi
uma rara exceção, mostrando que o amor verdadeiro ainda pode florescer em um
mundo de superfícies.
Anilberto, nascido em 05 de junho de 1931, era um homem de contrastes.
Embora gostasse de fumar e beber, carregava uma sinceridade marcante e um
respeito inabalável. À frente de sua mercearia, era o exemplo da ética: jamais
oferecia bebida alcoólica a menores. Em vida, tratava a esposa como 'minha
Santa Cleonice' e, com convicção, dizia que não suportaria viver sem ela, prometendo
que, se partisse primeiro, viria buscá-la.
Ao seu lado, Maria Cleonice Silva, nascida em 19 de novembro de 1936,
era o porto seguro. Com uma personalidade serena e apaziguadora, ela era o
contraponto perfeito à natureza firme do marido. Professora e costureira, ela
não apenas vestia a comunidade, mas também educava com doçura.
Antes de fincarem raízes em Quincuncá, o casal percorreu diferentes
caminhos. Moraram no Sítio Açude Grande, Sítio Tabuleiro, e nas cidades de
Crato e São Paulo, até que o solo fértil da Serra se tornou seu lar definitivo.
Juntos, tiveram 14 filhos: Kelma (a primogênita), José Adalberto (in
memoriam), Norma-Lyds, Cleonice Maria, Aparecida, Ana Cácia, Kleyla, Júnior,
Sheyla, além dos gêmeos Rômulo e Remo, Marta, Sandra e Albertina Bárbara que
morreram ainda na infância.
Na mercearia e na escola, Anilberto e Cleonice ensinavam que a riqueza
não estava no que se acumulava nas prateleiras, mas na mesa farta de filhos e
na dignidade do trabalho.
Essa filosofia de vida se estendia a toda Quincuncá. Em 1980, eles
organizaram o memorável "São Pedro da Roça", evento que uniu casais
da comunidade em uma quadrilha comunitária que até hoje é relembrada com
saudade pelos moradores.
O destino começou a cumprir a promessa de Anilberto em 05 de abril de
1996. Após sua partida, o mundo pareceu perder o sentido para "sua
Santa". Apenas vinte dias depois, em 25 de abril, ele cumpriu sua palavra
e veio buscá-la.
Dona Cleonice partiu da forma mais sublime: dormindo, tal qual a morte
serena do Padroeiro São José. Sem agonia, ela simplesmente fechou os olhos para
o mundo e os abriu para o reencontro eterno com seu amado.
Muitas pessoas falam em "almas gêmeas", mas Anilberto e
Cleonice evidenciaram o que isso significa na prática. Almas gêmeas são aquelas
que escolhem caminhar juntas, cuidando uma da outra nas horas boas e ruins. A
partida dela, logo depois dele, não foi por acaso, foi o encontro final de dois
corações que batiam no mesmo ritmo.
Hoje, eles repousam sepultados um ao lado do outro, sob a sombra de um pé de japão no Cemitério Padre Cícero. Ali, onde as folhas balançam suavemente, entende-se que a morte não foi um fim, mas apenas a última fronteira que cruzaram de mãos dadas.
Hoje, o nome de Anilberto e Cleonice permanece vivo no coração dos filhos e na memória dos Quincuncaenses, provando que o amor, quando é de verdade, não aceita o "ponto final" da biologia.

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